segunda-feira, 5 de julho de 2010

A Casa de Verão

[Praia D. Ana, Lagos. Algarve. 2009]

É cedo de manhã e o sol já está no auge do seu brilho. Dirijo-me à janela e o bafo do vento é quente e oiço nitidamente as gaivotas a cantar. Todas as pessoas começam a chegar à praia, lá em baixo. Umas a pé, outras de carro. Um grupo de jovens, talvez uns quinze, riem alto e trazem um cão.
As paredes da minha casa rústica eram intermédias entre o cor-de-rosa e o vermelho. Eu achava-as de uma cor exorbitante. A cor do verão. Estava levemente decorada, a casa, apenas com uma mesinha aqui, um sofá ali e mais algumas coisinhas acolá. Era apenas o que eu necessitava imprescindivelmente este verão. Era fresca, com cortinas brancas até ao chão, e cheira a praia. A mar. A areia.
A aldeia é pequena e todos se conhecem. É uma aldeia piscatória. Apesar do cheiro um tanto enjoativo a peixe, não consigo não gostar disto. Gosto de acordar cedo e vestir o fato de banho para dar um mergulho no mar secreto enquanto ninguém está presente para testemunhar. Sei que depois, quando volto para casa, os pescadores já estão a regressar de uma noite de trabalho, com as milhentas sardinhas que apanharam do qual o oceano algarvio é rico.
Durante o resto da manhã, ocupo-a junto da janela a ver a rotina daqueles que visitam esta terra. As crianças correrem felizes até ao mar e quando finalmente molham os pés, recuam com gargalhadas ensurdecedoras e inocentes. Os mais graúdos já constroem castelos na areia e devo acrescentar que os mais talentosos desenvolvem uma autêntica cidade, desatando depois a chorar quando algum distraído lhes destrói a ponte de areia enquanto corre a olhar para as moças ou quando algum cão feliz corre com a língua descaída atrás de um disco que o dono o mandou apanhar e, acidentalmente, choca com um castelo.
Os adolescentes banham-se no Atlântico enquanto que outros, os casalinhos de namorados não duradouros, beijam-se apaixonadamente deitados na toalha dela, só porque é a maior. Outros jogam à bola ou às cartas, enquanto que aquele grupo grande, apenas ri. Riem-se de tudo e de nada, da vida e do facto de estarem todos juntos.
Os adultos cuidam das crianças que correm despreocupadamente para a água e ajudam na construção dos castelos de areia dos mais graúdos. As avós e os avôs, protegem-se do sol debaixo dos guarda-sóis e pensam em tudo o que forneceram a este mundo e sem se aperceberem, estão agora reflectidos nos rostos das crianças que correm para eles completamente molhados e que não têm problema algum em atirar-se para cima deles.
Adoro ver cada vida daqui.
Quando acabo de comer algumas, poucas, sardinhas com batata cozida com salada de alface e tomate com orégãos como acompanhamento, subo para o terraço e deito-me na espreguiçadeira a ler um bom livro com um copo de limonada fresca ao meu lado.
A tarde começa a dar origem à noite e o pôr-do-sol é agora lindo no horizonte. Mais uma vez, da minha janela, vejo todas aquelas pessoas a prepararem-se para ir embora. Mas eu fico para um último mergulho, mais uma vez longe dos olhares de todos.
Quando o sol desaparece por fim, os grilos cantam em coro e as pessoas voltam a sair à rua para beber a bica depois do jantar ou para comer o gelado que as mães prometeram aos filhos se estes comessem o peixinho todo que estava no prato.
Desta vez eu também saio. Deambulo discretamente por entre a multidão. Não vou beber o café ou comer o gelado, vou sim para junto dos animadores de rua que dançam, pintam caricaturas e retratos a grafite, fazem palhaçadas para alegria dos mais pequenos, que, basicamente, trazem a felicidade alheia. Vou também contribuir para isso, porque afinal, a vida é um grande sorriso.

2 comentários:

Catarina disse...

Oláa Eunice!!

Estou a gostar imenso do teu blog!
E que descrição tão detalhada, poética mesmo! =)

Estou a ver que és muito observadora da condição humana!
É uma boa característica para trazer para a nossa área! ;)

Continua assim! =D

Maggie disse...

" A vida é um grande sorriso", dizes tu e bem.
Os sorrisos que fazemos desdobrar-se nos outros, e aqueles que recebemos, também.
Costumo dizer que esta é também uma dança que passa, silenciosa e astuta por nós. Nós somos aqueles que se propõem a dançá-la. Nesta casa de Verão observas cada minucioso detalhe, de dentro para fora, no conforto de uma casa de paredes frescas...
Desafio-te a ser essa casa, sempre com uma porta aberta, para deixar entrar quem merece. Uma casa com paredes frescas, que tu própria construiste com as tuas mãos. A paisagem que observas, basta fechar os olhos, para descobrires que esta está dentro de ti.
Continua a escrever, por favor :)
Um grande beijinho *